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rafael ferraz)"não devo, não quero e não posso. mas isso não acontece."
contos que têm apenas meio fim...Para sempreÁlvaro fez a pergunta que lhe estava cravada na garganta: "Quem é?" Rúbia sorriu antes de responder: "Você tem uma doença auto-imune". Já na rua, ele tomou-lhe a frente para abrir a porta do carro. Ao dar a volta, ajeitou o colarinho, os olhos cegos pela visão das belas pernas no banco do passageiro. A festa seria seu fim.No caminho, procurou ser ameno. "Essas festas nos K. são sempre um pouco snobs, não acha?" Ela sorriu. "Eu disse isso no ano passado." Não ligou para o sinal amarelo, o que a irritou um pouco. Era o que ele queria. Não falaram mais até a hora de armar o sorriso e descer para a festa. A porta da casa tinha pelo menos meia dúzia de manobristas e um burburinho encenado. Ficou inquieto quando o manobrista alto e forte foi abrir a porta dela, como mandaria o figurino. Aquelas pernas. Por que aquelas pernas?Ela desceu sorrindo, esse era o problema além das pernas. Foi encantando cada um até a entrada da casa, e festa adentro. Ali, foi sumindo aos poucos do seu olhar, ele era lento demais para segui-la. Em poucos minutos, desistiu. O primeiro uísque apareceu para acompanhar seus pontos de interrogação. O segundo chegou junto com o casal anfitrião, a quem ele reservou mesuras e inteligências, gesticulando com o copo, à forma de brindes excessivos. Rodopiou aqui e ali, falando com um, apresentando outros dois, mostrando-se solícito, simpático, sedutor. O terceiro uísque veio do lado da bandeja oposto ao que servia a uma bela e curiosa conviva. Apresentaram-se.Rúbia chegou sorridente em casa. Álvaro tinha sido uma companhia de risco naquele trajeto. Tinha, como sempre, bebido além da conta. Ela tinha moderado seu riso, agora mais delicado e carinhoso. Ele não lhe abriu a porta do carro, e entrou barulhento em casa. Ela não esperou boas-noites, não viriam, ainda teve disposição para pôr um uísque no copo. "Uísque?", ele balbuciou. "Uísque", ela respondeu, enquanto fixava os olhos nele, sorrindo. "Onde você andou a noite toda?" "Perto de você, bem perto de você", ela respondeu, sem deixar de sorrir, enquanto a ele ia restando só subir a escada conformado e praguejando, praguejando e conformado.Ele já babava no travesseiro quando ela pegou o telefone. Fazer o quê? Ele a obrigava a isso. Toda vez. Contra sua vontade. Mas fazer o quê?valeu Jayme Serva.